sexta-feira, 29 de maio de 2009

Juiz do caso Alexandra perturbado!

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Um juiz perturbado que condena uma criança impunemente é grave! Mais grave ainda é a confirmação da justiça continuar fortemente perturbada, perto da insanidade mental, num país que parece ter perdido o juízo. Para a semana já ninguém se lembrará da burrice judicial que condenou a pobre da Alexandra e outros juízes perturbados cometerão novos erros judiciais que continuarão a condenar outras crianças perante o silêncio de uma ineficiente e burocrática Comissão de Protecção de Menores.
É urgente garantir os direitos de cada criança, repensar que a família biológica, apesar de ser o núcleo familiar mais natural nem sempre é a opção mais certa.
É urgente garantir um cuidado e intensivo apoio a famílias disfuncionais para que possam ter condições psicológicas e sócio-económicas para cuidar dos seus filhos.
É urgente mudar o paradigma e reconhecer que o cerne da família é o amor e o afecto, sendo os laços de sangue um suporte demasiado frágil e muitas vezes fortuito para ser tornado lei.
Será difícil encontrar um pouco de sabedoria e de bom senso num país com tantas personalidades sapientes?

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Crise? Para quem?

As revistas semanais de hoje referem os salários de alguns gestores quer da banca quer de empresas onde o Estado é o maior accionista. Salários acima de um milhão de euros por ano! Devem ser uns gestores brilhantes, pensei com ironia! Reflecti melhor, pois não queria estar a olhar para um bando de malfeitores, pois um deles até considerava demagogia falar dos seus chorudos salários. Li e reli perplexo! Afinal todos são ora banqueiros (a quem o Estado acaba de evitar que se afoguem na crise que atingiu a banca) ora gestores de empresas que têm o monopólio do sector em que actuam. Qual a virtude de ter bons resultados, nestas condições? E será que justificam vencimentos tão escandalosos, quando o número de desempregados não cessa de aumentar sem que mexam um dedo para atenuar este flagelo?
Começo a compreender porque temos o crédito mais caro, a energia eléctrica e o combustível mais caros, o acesso à internet mais caro e outros bens com preços pouco competitivos - fraca produtividade de quem trabalha, porque quem gere é iluminado! Mercenários competentes tomaram conta da gestão das empresas perante a apatia dos governantes, que ora estão no Governo da Nação ora estão como Gestores (mentes) Brilhantes!
Compreendo, também, que considerem como inveja qualquer crítica a este estado de coisas, que é no mínimo chocante! Se ao menos fossem empresários de sucesso! Espero que não sejam apenas mais uns mercenários bem sucedidos, tornando estas notícias uma versão moderna do Ali Bábá, como ilustrada pelos casos BNP e BPP, também com gestores de excelência, merecida e generosamente remunerados.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Pai Américo


Como “gaiato” (antigo, dizem uns, sempre “gaiato” afirmo eu), orgulhoso do meu humilde percurso pessoal e profissional, falar sobre Pai Américo sempre me foi muito difícil. Das várias razões de dificuldade, destaco:
- os muitos estudos, profundos e interessantes, sobre Pai Américo e a nossa Obra da Rua, de que me merece particular referência pelo seu pioneirismo (sem desprimor para todos os outros) a tese de doutoramento, em Louvaina mui saudoso professor João Evangelista Loureiro, grande amigo da nossa Obra;
- outra razão, mais intimista: não me é fácil, como filho, ser isento e imparcial, nem me interessa muito o impacto de Pai Américo na sociedade quando comparo o impacto que teve na minha vida e na de muitos gaiatos - sabendo que sem a Casa do Gaiato não seria o homem que hoje sou mas, eventualmente um reputado delinquente.

E para iniciar a referência à importância de Pai Américo na sociedade do seu tempo, nada melhor que relembrar o recente testemunho do professor Albano Estrela, iminente pedagogo, hoje com 76 anos (que foi Presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa) que quanto à descoberta da sua vocação, referiu:

”Não sei com precisão quando comecei a interessar-me pelas coisas da Educação, mas creio que foi na minha adolescência, ao ouvir duas pregações em igreja do Porto. Autor das pregações: o Padre Américo. A força das suas palavras alertou-me para dois problemas: a obrigação que todos temos de participar na educação do nosso semelhante e as enormes potencialidades que existem em cada criança, em cada jovem, potencialidades que cumpre ao educador fazer emergir.”

A influência de Pai Américo na descoberta desta brilhante vocação evidencia o autêntico vendaval de amor e dedicação aos mais carenciados que agitaria as consciências de futuros educadores, de quem se tornaria uma referência pedagógica apontando novos caminhos.

Denunciando publicamente, em igrejas e salas de espectáculos, as injustiças sociais, a desigualdade e indiferença de muitos, a falta de assistência aos doentes e a promiscuidade de muitas famílias, a sua palavra penetrava nas almas sedentas de justiça.

Numa sociedade dilacerada pela fome e pela miséria, progenitoras da marginalidade e da delinquência, Pai Américo foi o exemplo da opção franciscana de combate à exclusão social das “crianças e jovens mais desfavorecidos e mais desfigurados na sua dignidade humana, vítimas de tantos atropelos”.

Pai Américo foi um homem generoso que vivendo e lutando por um ideal cristão despoletou mais paixões que ódios. Foi um acérrimo defensor dos mais desfavorecidos, num regime que não via com bons olhos os que com veemência estavam empenhados no combate à miséria e a injustiça. Foi, como referiu Helena de Sousa Pereira, uma “figura ímpar pela luz que derramou em época sombria …”

Ou foi apenas, como próprio se definiu “um revolucionário pacífico, um pobre que sangra, um pai que chora, um português que ama!"

Pai Américo foi igualmente o pioneiro de uma inovadora pedagogia, alicerçada na auto-educação e na co-responsabilização como caminho seguro para um bom trabalho educativo. Uma pedagogia que tem por base a mais elementar célula social: a família. E de facto, é uma família – com as virtudes e as fraquezas de qualquer família numerosa – que Pai Américo oferece às crianças abandonadas, às “crianças mais repelentes, mais difíceis e maus viciosas”, que conhecem o sofrimento e o sabor amargo da miséria. Uma família assente numa filosofia aparentemente muito simples, em alternativa ao asilo, ao reformatório ou à colónia penal.

O próprio Pai Américo resumiu o seu método educativo deste modo: "simplicidade, família, amor, respiração contra respiração, contacto com a vida, tudo junto com a formação espiritual e nada mais”.

Num ambiente naturalmente singelo são incutidos aos então “vadios da rua” valores éticos e princípios de vida cada vez mais ignorados – solidariedade, justiça social, liberdade na responsabilidade, entre outros, permitindo transformar “o lixo da rua” em pessoas de bem, que sentem orgulho em afirmar que muito do que são o devem ao facto de terem sido "gaiatos"!

E os gaiatos compreendem que a cidade do Porto tivesse ficado "em estado de choque emocional" com a sua morte, segundo as palavras do jornalista Ramos de Almeida, publicadas no "Jornal de Notícias" de 19 de Julho de 1956, logo após o funeral de Pai Américo. E compreendem, melhor que ninguém, o forte sentimento de pesar que se apoderou da população do Porto ao ter conhecimento do acidente de automóvel que roubou a vida a Pai Américo e que deixou perplexo o citado jornalista que afirmou não saber “mesmo se em toda a sua história o povo do Porto jamais chorou com tanta espontaneidade a morte de um homem”.

E relembro uma vez mais que a Casa do Gaiato ajudou a fazer de mim um homem de corpo inteiro, inquieto e contraditório, atento aos problemas sociais, com o gosto pela cultura e com um humor quase perverso de encarar a vida. Como compreendem a Casa do Gaiato não fez tudo pelo que hoje sou, mas "preparou a terra, lançou e cuidou da semente..."

E Pai Américo, que dedicou a sua vida à realização do seu sonho - “fazer de cada gaiato um Homem!” - continua a ser para mim a principal referência ética e pedagógica. E, como seu filho, serei sempre um defensor intransigente da sua Obra e do seu património pedagógico.

terça-feira, 31 de março de 2009

Grito de equidade!

Crise?! Recessão?! Nos anos quarenta Pai Américo clamava por justiça social. O enxerto de texto abaixo poderia ter sido escrito nestes tempos socráticos:

"(...) a ordem social exige que todos quantos têm rendimentos se obriguem, em consciência, a gastá-los bem, com economia, na roda do ano: distribuir, auxiliar, contribuir, dar aos que se não podem bastar.
E este mínimo de coisas todos têm obrigação de compreender e de praticar. Porque é verdadeiramente criminoso todo aquele senhor que ao capital que rende vai juntar os juros desse mesmo capital.
Amarrar assim, de pés e mãos, o direito das classes pobres ao pão-nosso-de-cada-dia, é semear no seio delas: lágrimas, fome, miséria e, por fim, desespero."

Pai Américo: Pão do Pobres, 1º volume

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Efeméride

Domingo, 8 de Fevereiro. Fazia 50 anos que entrei para a Casa do Gaiato. Era uma efeméride que merecia ser discretamente festejada mas vivamente saboreada.
Estava uma manhã chuvosa e enevoada, contrastando com a luminosidade da minha alma, quando acompanhado de minha mulher e de nossa filha, família constituída há mais de 30 anos, subi emocionado a avenida, ainda deserta, da Casa do Gaiato, em Paço de Sousa. Com o coração inundado de gratidão, rumei à capela e recolhi-me por breves momentos junto à campa de Pai Américo. O simbolismo de lhe agradecer pessoalmente o cidadão que sou, continua a ser sempre um dever moral. Mas nesse dia chuvoso de Fevereiro tinha outro sabor. O tornar-me gaiato mudou decisivamente o rumo da minha vida. Uma drástica mudança, num rapaz traquina, franzino e de olhar vivo, que deixou o casebre em que vivia, na companhia de um velho casal de mendigos, numa “ilha” miserável das ruas do Porto. Ganhava o direito a sonhar a certeza de uma vida saudável, cortando o cordão umbilical com a miséria física e moral. E ganhei uma família. Uma família diferente de todas as outras, é verdade, mas uma família onde o carinho e o afecto são uma realidade. Uma família constituída por rapazes abandonados ou socialmente definidos como “os mais repelentes”, como dizia Pai Américo, a quem o futuro não oferecia nada de bom. Uma família tão diferente, que ainda hoje confunde políticos e juristas que fazem e aplicam leis tontas, desconhecendo que o cerne da família é o amor e o afecto, sendo os laços de sangue um suporte demasiado frágil e muitas vezes fortuito para ser tornado lei. Ainda hoje, é com alguns gaiatos de então, a que trato por “mano”, que tenho um convívio frequente e solidário e não com os irmãos de sangue (ainda que filhos da mesma mãe e cada um filho de seu pai) que me são desconhecidos emocionalmente.
Um passeio vagaroso pela aldeia, com a comunidade ainda a despertar, sob a chuva miudinha que se associava à minha alegria, qual gotas de champanhe borbulhando, a rememorar os afectos e os factos mais relevantes de uma vida de 15 anos na Casa do Gaiato.
Hora da missa. Os rapazes vão chegando ao cruzeiro frente à capela. Abraços e troca de memórias com outros gaiatos do meu tempo, que envelheceram como continuadores da Obra, confirmando o desejo do fundador, “Obra de Rapazes, para Rapazes, pelos Rapazes”.
A capela cheia. Mais que uma liturgia, a missa sempre foi um acto comunitário, uma reunião de família, onde todos devíamos estar presentes. Um acto a que, como gaiato, assisti despojado de constrangimentos. Apesar de agnóstico, aceitei o generoso convite para fazer a primeira leitura da missa de domingo. Um texto lindo e intemporal do livro de Job, muito a propósito, exigindo uma reflexão sobre o sentido da vida.
Terminada a missa, um “até depois” e o regresso a Lisboa, com a alma mais limpa e o coração com um bater mais leve. E com a certeza que continuarei sempre gaiato e que defenderei com toda a lucidez e energia a Obra de Pai Américo, a minha família, dos seus detractores por melhores que sejam as suas ignotas intenções.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

"Velhos são os trapos"!


Chegada a minha hora de deixar a nau (a vida activa) - prematuramente, têm dito alguns, mas o desencanto com a política de gestão das pessoas (uma arte que sempre me fascinou!) na empresa a que dediquei 30 anos da minha vida, parece não ter remédio e há rumos que o meu incorrigível inconformismo
radical?
sonhador?
excêntrico?
me impede de seguir!

Vou arriscar navegar nestas águas virtuais! Por agora é experimentalismo!

Espero ter sabedoria para encontrar o manancial de oportunidades que esta inevitável mudança me oferece e continuar a ser:
um tipo livre e solidário, inquieto e contraditório, empático e bem-humorado, anarquista inofensivo que valoriza o ser em detrimento do ter; um socrático intuitivo – cuja divisa é "só sei que cada vez sei menos!" e "pelo sonho é que vamos!" - com uma curiosidade e uma vontade de aprender incorrigíveis e com uma franciscana ambição: saborear a vida e ter tempo para flanar.